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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

As Cavalhadas de São Pedro - Ribeira Seca - São Miguel - Açores - Portugal

As Cavalhadas da Ribeira Seca da Ribeira Grande são uma das tradições mais notáveis e famosas dos Açores. O nome deriva do Castelhano caballadas (de caballo), que se refere a vários tipos de provas de destreza equestre. Câmara Cascudo, no Dicionário de Folclore Brasileiro, define cavalhada como desfile a cavalo, corrida de cavaleiros, jogos de canas, jogo de argolinhas. As cavalhadas subsistem em muitas partes do Brasil, e as de Pirenópolis, no Estado de Goiás, ligadas às festas do Espírito Santo, seguem a tradição europeia da dramatização da luta de Rolando contra os Mouros, em Roncesvales, a célebre gesta dos Doze Pares de França.

As primeiras cavalhadas de Pirenópolis aconteceram em 1826, sendo a maior parte dos seus habitantes oriunda do Norte de Portugal. Em Vildemoinhos, perto de Viseu, mantêm-se como desfile de cavaleiros vestidos de fato escuro e montando cavalos ajaezados. Resultam, segundo a tradição, de uma promessa feita a São João Baptista pelos moleiros, no caso de conseguirem sentença favorável de água para os seus moinhos, havendo quem pense que têm influência das Cavalhadas da Ribeira Seca.

A primeira destas romagens à capela do santo, com os cavaleiros vestindo de negro, como os nobres, e com os cavalos ajaezados, terá sido em 1652. No entanto, no século XX passaram a incluir carros alegóricos, bandas de música, ranchos folclóricos e muitos outros elementos que não faziam parte da tradição. Há a opinião generalizada de que as Cavalhadas da Ribeira Seca terão sido inspiradas nos jogos de canas. No entanto, essa influência, se realmente existiu, talvez não tenha ido além do facto de se tratar de um desfile de cavaleiros, vestidos com trajes coloridos e montando cavalos ajaezados.

Os jogos de canas consistiam numa simulação de luta entre dois grupos de cavaleiros, e eram assim chamados por ser uma cana que servia de lança de arremesso ou dardo. Para se defenderem, os cavaleiros usavam um escudo pequeno e redondo de coiro, a adarga. Há notícia de alguns destes combates realizados em São Miguel, sendo aquele de que se conhecem mais pormenores o que organizou o quinto Capitão da ilha, Rui Gonçalves da Câmara, o segundo que houve com este nome.



Foi num dia de Páscoa, pouco tempo depois da subversão de Vila Franca do Campo em 1522. A folgança destinou-se a divertir a população de São Miguel, ainda muito abalada pelos trágicos acontecimentos daquela noite de 22 de Outubro. Os contendores de Ponta Delgada e da Lagoa lutaram contra cavaleiros da Ribeira Grande – a que se juntou alguma gente de Rabo de Peixe –, de Água de Pau e de Vila Franca. Vestiam trajes coloridos de seda, veludo e outros tecidos nobres. Os de Vila Franca, em sinal de luto, usaram apenas o preto e o roxo.

Os cavalos, e mesmo uma besta que transportou as canas, estavam também ricamente adornados. O combate decorreu num terreno ao longo do mar, na Lagoa, onde o Capitão residiu algum tempo depois da tragédia. Veio muito povo, de toda a ilha, que assistiu num lugar mais alto, de modo a estarem todos protegidos de eventuais pisadelas dos cavalos ou de alguma cana que falhasse o alvo.

Muitos eram os cavaleiros que usavam mais do que um cavalo, porque a luta lhes exigia um grande esforço. Havia arranques e paragens constantes e corridas com mudança de direcção em ângulos apertados, numa espécie de bailado para fugir ao ataque dos adversários ou para tentar apanhá-los desprotegidos. Nesse jogo de canas houve um episódio que serve para perceber como, por vezes, essa simples diversão poderia tornar-se numa luta perigosa. Esteve ali presente o Abade de Moreira, que viveu alguns anos na Ribeira Grande, exímio na arte de cavalgar e de jogar as canas.

Lutador incansável, levou consigo dois cavalos. Um dos adversários com quem lutou foi D. Manuel da Câmara, filho do Capitão, a quem atirou uma cana certeira que o moço defendeu com a adarga. A mãe, D. Filipa Coutinha, exaltou-se muito, considerando que o filho tinha direito a tratamento semelhante ao de El-Rei, a quem as canas não deviam visar o vulto mas ser lançadas por cima da cabeça. E, no seu destempero, gritou que matassem o abade. Este, homem forte e truculento, pegou num dardo e respondeu que viessem matá-lo, mas que antes deixaria ali cinco ou seis caídos para sempre. Mais sensato, Rui Gonçalves da Câmara entendeu que o filho não tinha direito a isenções, e mandou ao abade que lhe atirasse outra cana. A origem das Cavalhadas – e neste ponto é indispensável evocar o Dr. Armando Cortes Rodrigues – é tida como resultante de uma promessa do próprio Capitão, que era então D. Manuel da Câmara e que já voltara a residir em Vila Franca.

A lava da erupção de 1563 destruiu a maior parte da Ribeira Seca da Ribeira Grande, deixando porém intacta a igreja paroquial, dedicada a São Pedro. Apesar da devastação provocada, não houve nenhum morto na ilha por sua causa. D. Manuel da Câmara teria prometido ir cantar em verso a vida do apóstolo à porta da sua igreja, caso a família não sofresse consequências graves. E tê-lo-á feito indo de Vila Franca à Ribeira Seca a cavalo e acompanhado de homens que o serviam e dos mordomos do Espírito Santo.




Ora, mesmo que se tenha por certa esta versão, não se percebe onde estará a dita derivação das Cavalhadas a partir dos jogos de canas. Talvez não mais do que nos trajes usados pelos cavaleiros, em que dominam o branco e o vermelho (as cores do Espírito Santo), pois que D. Manuel da Câmara e o seu séquito terão ido decerto com os ornamentos pessoais e dos cavalos que ostentariam em momentos de gala.

E os jogos de canas eram um desses momentos especiais, tanto mais que costumavam ocorrer em dias de grande festa. A comitiva do Capitão terá dado sete voltas à igreja de S. Pedro, talvez evocando os dons do Espírito Santo, dirigindo-se depois à sua igreja da Misericórdia, para concluir o ritual com uma visita à ermida de Santo André, irmão de S. Pedro. Sem grandes alterações no essencial é este o percurso actual do cortejo, normalmente com mais de uma centena de participantes.

São comandados pelo “Rei”, seguido de perto por três corneteiros que vão anunciando a aproximação e passagem dos cavaleiros. Tornou-se habitual que todo o grupo, que parte do Solar da Mafoma, na Ribeira Seca, visite também a Câmara Municipal, entoando loas à edilidade como reconhecimento pelo apoio que dela recebem.

Os Romeiros da Quaresma - Açores - Portugal

Na 4ª feira de cinzas dá-se início à Quaresma. Durante as 5 semanas que se seguem é comum ver nas estradas de São Miguel grupos de homens caminhando e rezando em voz alta. Estes peregrinos a que se dá o nome de Romeiros, saem às ruas da ilha todos os anos para reafirmar a sua fé e agradecer a Deus as graças concedidas. A tradição terá surgidos em 1522, quando a primeira capital de São Miguel, Vila Franca do Campo foi sacudida por um forte tremor de terra. Seguiu-se uma erupção vulcânica em que dos 4.500 habitantes só sobreviveram 500. Quarenta anos mais tarde outro vulcão surgiu no local onde se situa a Lagoa do Fogo.

Desde então há registo de que todos os anos grupos de homens caminham orando à volta da ilha, cumprindo promessas, é sobretudo a rezar que os dias vão passando, rezar e caminhar.
Durante 1 semana estes homens carregam consigo apenas um saco com o essencial e vão pernoitando em igrejas, escolas ou casas de pessoas que se oferecem para receber os Romeiros. Por vezes as casas de folha (palha) são suficientes para passar a noite. Na casa em que são acolhidos é hábito lavarem-lhe os pés doridos.

O “procurador das almas” é quem fica para trás do cortejo, de modo a receber os pedidos de quem passa por eles na estrada. Os “irmãos” rezam, sendo o “mestre” quem sabe quais as orações apropriadas. O “contramestre” segue a meio do cortejo, na companhia do “lembrador das almas”, enquanto à frente os guias marcam o compasso, dão o ritmo de modo a facilitar a caminhada e a torna-la mais agradável a todos. Os irmãos mais pequenos caminham à frente e levam a cruz.


Trazem todos na mão o bordão de madeira e trajam hábitos tradicionais, carregados de simbolismo. Antigamente andavam descalços, actualmente, utilizam calçado mais confortável. O bordão é feito em pinho, à medida de cada irmão, o do mestre destaca-se dos restantes por possuir uma cruz na extremidade. O xaile representa o manto com que cobriram Jesus; o lenço representa a coroa de espinhos; a saca que transportam às costas representa a cruz e o terço é dedicado à Virgem Maria.

Quando regressam à paróquia, as irmandades despedem-se na chamada “despedida da salvação”, uma festa em que participam todos os habitantes da freguesia.
Passaram oito longos dias de caminhada e fé, de companheirismo e oração. Fecha-se o percurso em círculo no sentido dos ponteiros do relógio, como se uma viagem de eterno retorno se trata-se, uma volta à ilha, uma volta ao mundo.

Festas do Espirito Santo - Açores - Portugal

Os festejos populares do Espírito Santo, entre os açorianos, dentro e fora dos Açores, são consequência de uma das mais bem sucedidas inculturações liturgicas, na vivência das gentes vindas de diversos povos, aglutinados na Fé Cristã. São a pedra de toque, bebidas nas raízes da prática cristã do Amor a Deus traduzido nos pequenos gestos do Amor ao próximo.

Graças às missões populares dos franciscanos, que, no povoamento destas Ilhas, deixaram marcas profundas no coração dos pobres e humildes, que não decoram a teologia dos compêndios, mas percebem nitidamente o essencial da alegria, da partilha fraterna e da Bondade divina, continuada nas Obras de Misericórdia.


Quando há dezassete anos a então Acção Católica Rural de Santa Bárbara das Nove Ribeiras lançou a Primeira Semana Juvenil do Espírito Santo, fê-lo com a missão de transmitir aos mais novos os valores, que os nossos festejos do Espírito Santo fazem emergir.
Felizmente muitos outros grupos pegaram seguiram-lhes as pisadas e, hoje, vemos Casas do Povo, Centros de Convívio, Grupos de Jovens, Escolas e a própria Misericórdia, apostados na vivência da convivialidade das pessoas, na alegria do encontro e na comensalidade dos que partilham o pão e a carne da mesma refeição fraterna.

Alguns conseguem conjugar com graciosidade os terços do Espírito Santo, com a palavra oportuna de uma catequese acessível às diversas idades, sobre o modo de ser e de viver dos cristãos. Mais importantes do que os Triatros do Divino, são os corações dos fiéis que se abre aos dons do Espírito Santo.


Santo Cristo - O Culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres - Acores - Portugal


Numa ilha de vulcões em actividade constante e de sismos frequentes, a devoção era o único refúgio do povo, através do culto do Divino Espírito Santo e ao Senhor Santo Cristo dos Milagres.

A devoção que Teresa da Anunciada, venerável religiosa do convento de Nossa Senhora da Esperança, tão intensamente sentiu por Cristo, marcou profundamente a alma do povo, de tal modo que o culto ao Senhor, através da procissão com a imagem, se expandiu e fortaleceu ao longo dos séculos.

É, hoje em dia, a maior procissão, a mais grandiosa e a de maior devoção que se realiza em terras portuguesas.
No coração de cada açoriano, disperso pelo mundo, há um altar de culto eterno ao Senhor Santo Cristo, onde as suas preces mantêm permanentemente acesas místicas velas de imperecível devoção e saudade.

Daí a presença de milhares de açorianos que vêm participar, todos os anos, de Portugal, dos Estados Unidos da América, do Canadá e, naturalmente, das outras ilhas, nas grandes festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, numa autêntica e profunda manifestação de fé e devoção.
Semanas antes da procissão, o mosteiro da Esperança e a praça 5 de Outubro são preparados e enfeitados festivamente com milhares de lâmpadas multicores, mastros e bandeiras, flores de todas as espécies e cores que conferem ao recinto um deslumbrante ar de festa.

As festas duram vários dias. Sucedem-se os serviços religiosos e os concertos. Na tarde de sábado, há pessoas que andam à volta da praça de joelhos sobre as pedras do pavimento ou, então, carregadas de círios de cera, num agradecimento pela graça recebida do Senhor numa hora de aflição e sofrimento.

Depois, no domingo, milhares de pessoas incorporam-se na procissão. A abrir, o guião, com a coroa de espinhos dourada, depois duas longas filas de homens com opas, muitos com grossos círios votivos, outros descalços, no cumprimento de promessas, interrompidos por grupos de filarmónicas. Seguem-se associações juvenis transportando guiões de cores garridas, crianças vestidas de anjos, alunos do seminário, o clero micaelense e alguns sacerdotes convidados, todos eles a precederem a venerando imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, transportada sob um docel de veludo e ouro, num trono de lindíssimas flores de seda e pano, tecidas no século XVIII.

Após a veneranda imagem, seguem-se os dignatários da Igreja Católica, representantes das congregações religiosas sediadas em S. Miguel e muitos milhares de senhoras, no cumprimento de promessas.

A fechar o extenso cortejo, seguem-se as mais altas autoridades militares e civis, representações e associações sociais e desportivas.
A grande procissão recolhe, já quase noite, após cinco horas de circulação pelas principais ruas de Ponta Delgada.



O corpo principal do tesouro do Senhor Santo Cristo dos Milagres é constituído pelas seguintes jóias: o Resplendor, a Coroa, o Relicário, o Ceptro e as Cordas.

Frutos dos mistérios da Fé, sinais da gratidão dos mortais pelos milagres que os ajudam a caminhar pela vida, o Ex-Libris do Tesouro, o RESPLENDOR é a peça mais rica do espólio. Fotografado e documentado por especialistas internacionais em arte, foi recentemente considerado, num congresso em Valladolid, Espanha, a peça mais valiosa do seu género em toda a Península Ibérica.


O RESPLENDOR, em platina cromada de ouro, pesa 4,850 gramas e está incrustado de 6.842 pedras preciosas de todas as qualidades: topázios, rubis, ametistas, safiras, etc. Além do valor artístico, esta jóia está carregada de elementos simbólicos ligados à teologia. O primeiro é a da Santíssima Trindade, representada por um triângulo no centro que contém três caracteres com o seguinte significado: "Sou o que Sou" e também "Pai, Filho e Espírito Santo".
Deste triângulo irradiam os resplendores para as extremidades da peça. O segundo elemento é a Redenção de Cristo, representada pelo cordeiro sobre a cruz e pelo livro dos Sete Selos do Apocalipse. Um terceiro é a Eucaristia, simbolizada por uma ave, o pelicano, pelo cálice e pelo cibório. O último elemento simbólico do RESPLENDOR é a Paixão de Cristo passando pela coroa representada em pormenor: desde a túnica ao galo da Paixão, passando pela coroa de espinhos integralmente feita de esmeraldas.


Se o Resplendor é a jóia mais rica do Tesouro, a COROA é a sua peça mais delicada. Em ouro, pesando apenas 800 gramas, possui 1.082 pedras preciosas, todas elas trabalhadas com minúcia, onde os próprios espinhos são pequeníssimas pedras que diminuem de tamanho nas extremidades.

O RELICÁRIO é, por outro lado, a peça mais enigmática do Tesouro. É a única que está permanentemente colocada no peito da imagem e serve para guardar o Santo Lenho, que se crê ser uma farpa da verdadeira cruz em que Jesus foi crucificado.

O CEPTRO, a quarta peça do Tesouro, é constituída por 2.000 pérolas que formam uma maçaroca de cana, 993 pedras preciosas ao longo do tronco e no conjunto de brilhantes com renda de ouro na base, onde está colocada a Cruz de Cristo.

Finalmente, as CORDAS, com 5,20 metros de comprimento, constituem a quinta peça do corpo principal do Tesouro. São duas voltas de pérolas e pedras preciosas enroladas em fio de ouro.

Estas jóias possuem um valor incalculável, que ainda não está devidamente avaliado. As Jóias do Senhor Santo Cristo dos Milagres, como também a colecção de capas usadas pela imagem, podem ser admiradas no Convento de Nossa Senhora da Esperança.

Santo Cristo - O Campo de São Francisco - Açores - Portugal

No Convento da Esperança foi edificado, na primeira metade do século XVI, por iniciativa de Filipa Coutinho, viúva do Capitão Donatário Rui Gonçalves da Câmara.Os terrenos necessários para a Igreja e para a cerca haviam sido doados por Fernando Quental e sua mulher, Margarida de Matos.

A linha nascente do Campo de S. Francisco, já na segunda metade do século XVI, teve a orientação actual, porque Cristóvão de Matos Quental, descendente do dito Fernando de Quental, mandara construir, por volta de 1609, nas suas casas, daquele lado, a ermida de Nossa Senhora da Ressurreição, também conhecida por Senhora da Soledade.

No lado poente, no início do século XVI, já havia uma ermida de Nossa Senhora da Conceição, pertencente à Câmara Municipal. No local dessa ermida, foi erguido o primeiro convento de franciscanos, como se lê na "Crónica da Província de S. João Evangelista", de Frei Agostinho de Mont'Alverne. As obras para o actual convento e igreja dos franciscanos começaram em 1709. A parte do convento estendia-se para o lado sul, com um adro mais alto do que a rua.

Com a extinção das ordens religiosas, foi instalado nesta parte sul, o hospital da Santa Casa da Misericórdia, em 1834.
O Campo de São Francisco foi, em tempos antigos, teatro de grandes festas. No final do século XVIII, quando ali já existiam as casas da Família Marques Moreira, então pertencentes ao Dr. António Francisco de Carvalho, realizaram-se grandes festejos para comemorar o nascimento de uma princesa, filha de D. João VI.




Houve, então, um "brinco militar" - paródia guerreira - e um "brinco de touros" e uma "encamisada" - cavalgada de 200 homens, vindos de S. Roque.
A parte sul do campo era limitada, em parte, pelo Castelo de S. Brás e, em parte, por casas cujas traseiras davam para o Corpo Santo.

O aspecto do Campo de S. Francisco mais próximo do actual foi dado, por volta de 1825, pelo Governador Militar Brederode que o mandou arborizar, e colocar banquetas em redor. Até então, era o Campo do Dízimo, passando, a partir dessas obras, a ser local de recreio e de exercícios e paradas militares.

A sul do mesmo campo, havia uma fonte monumental. As armas da cidade, esculpidas em mármore e que havia na parte central dessa fonte, vieram de Lisboa e foram colocadas em fins de 1849.
Em 9 de Setembro de 1868, o Campo foi aterrado e nivelado de novo, sendo então cortado o adro do Convento dos Franciscanos, para aí ser rasgada uma rua que ligaria directamente com a praça.

Ainda em 1870, houve, no Campo de S. Francisco, uma exposição de gado. Neste mesmo ano, e na esplanada rente ao Castelo, José Lopes do Rosário (popularmente conhecido por "Rei dos Tambores"), deu ali espectáculos de circo, com macacos e ursos.
No sábado, 2 de Julho de 1870, houve, no Campo, exercícios de fogo de peça e de espingarda, pelos marinheiros da corveta "Duque de Palmela".

Em Março de 1871, houve uma subscrição pública para alindar o Campo, iluminá-lo a petróleo e dotá-lo com um quiosque, ao centro. As obras de alinhamento começaram no mês seguinte, tendo a Câmara plantado novas árvores.

O coreto - uma construção leve, rendilhada, de madeira, imitando um pagode chinês - foi inaugurado no dia 12 de Maio de 1871. Segundo Bretão Ribeira (pseudónimo de Joaquim Maria Cabral, in "Açores", 1951), o coreto seria da autoria de Pedro Paulo que também foi autor do edifício da Agência do Banco de Portugal, em Ponta Delgada, de que foi director. Outros afirmam que o quiosque foi projecto dos irmãos José e Ernesto do Canto.

Este belo coreto foi pasto de um incêndio, ao meio-dia de 24 de Maio de 1957. Estava já todo ornamentado e com a respectiva instalação eléctrica, pronto para as festas, quando uma roqueira, lançada perto, caiu na cúpula. O fogo propagou-se rapidamente às centenas de flores de papel de cera que revestiam completamente o coreto. Os bombeiros conseguiram salvar apenas a estrutura que, coberta apressadamente de verduras, serviu nas festas daquele ano.
O antigo coreto foi substituído, anos depois, pelo actual, uma pesada estrutura de cimento, muito longe da graciosidade, leveza e harmonia daquele que ardeu.

O primeiro carrossel que apareceu no Campo de S. Francisco, pelas Festas do Senhor, foi em 1884, e pertencia a Manuel Coelho Lourenço, da Ilha Terceira, donde o trouxera. Vendera-o a Cândido José Xavier Jr., que o vendeu, por sua vez, a João Diogo, por 60$000 réis insulanos, ficando conhecido, por isso, pelo nome de "cavalinhos de mestre João Diogo".

A 7 de Abril de 1886, começou a demolição de parte da cerca do Convento da Esperança, para a abertura da Avenida do Coliseu, hoje denominada de Roberto Ivens. Por esse motivo, em Junho desse ano, procedeu-se à exumação de 80 cadaveres de freiras, que foram depositados no Cemitério de S. Joaquim, construído em 1846.

A 26 de Outubro de 1886, ficaram concluídas as três escadas, mandadas construir pela Câmara Municipal, em frente dos pórticos da Igreja de S. José.
O lajeamento em frente do hospital e da igreja começou a 10 de Novembro de 1886.
Na segunda-feira, 15 de Novembro de 1886, começaram as obras do actual pórtico do hospital.

Santo Cristo - O Mosteiro de Nossa Senhora da Esperança - Açores - Portugal


O Mosteiro de Nossa Senhora da Esperança foi o primeiro Convento de Freiras que se erigiu em Ponta Delgada. A sua construção foi iniciada em vida do seu fundador, o Capitão Donatário Rui Gonçalves da Câmara (Rui II) que, depois do terramoto de 20 de Outubro de 1522, que arrasou Vila Franca do Campo, passou a residir em Ponta Delgada que já era vila desde 1499.
Sua mulher, D. Filipa Coutinho coadjuvada por vários fidalgos, conseguiu concluir as obras, interrompidas ao tempo da morte do fundador ocorrida em 20 de Outubro de 1535. Foi em 23 de Abril de 1540 que as freiras deixaram o convento da Caloura, trazendo a Imagem do Senhor Santo Cristo, e vieram habitar o Mosteiro da Esperança.

Na segunda metade do século XVII, o Convento da Esperança começou a beneficiar de grandes melhoramentos: os célebres azulejos que ainda hoje se encontram no coro baixo, são da autoria de António de Oliveira Bernardes; a talha da capela do coro baixo é atribuída a Miguel Romeiro que, em sonhos, a ideara; a decoração do tecto da igreja e da primitiva talha da capela-mor e dos altares laterais foi realizada, em 1658, pelo pintor micaelense Manuel Pinheiro Moreira, irmão da Ordem Terceira de S. Francisco, em Ponta Delgada, e professor de pintura de suas próprias filhas.No ano de 1723, havia na Esperança 102 freiras e 57 noviças, pupilas e servas. Em 1821, a população do mosteiro era de 108 senhoras - 42 freiras professas, 36 seculares sem dispensa e 30 fâmulas. Em 1865, havia 72 senhoras, sendo 9 religiosas da Esperança, 11 do Convento da Conceição, uma do convento de S. João, uma do convento do Bom Jesus da Ribeira Grande, uma do convento de Santo André de Vila Franca, 16 meninas que serviam no coro, uma secular, duas senhoras que não faziam serviço, vinte e uma servas da comunidade e onze servas particulares.

As Religiosas de Maria Imaculada foram o quarto instituto a ocupar o Convento da Esperança. A última religiosa clarissa, a Madre Abadessa Maria Vicência Cabral, faleceu em Dezembro de 1894. Já então havia recolhidas que vestiam hábito e continuavam os usos conventuais, não obstante os reparos da imprensa periódica, ainda presa aos decretos anti monásticos de Maio de 1832.Com o Bispo D. António Meireles, na terceira década do presente século, vieram as Visitandinas, a que sucedeu a Congregação de São José de Cluny. Constituído o seu colégio, conforme risco do arquitecto micaelense João Rebelo, na Rua Agostinho Pacheco, coube às Religiosas de Maria imaculada ocupar o Convento, em cuja recuperação trabalharam como operárias.

Tinham as Clunicenses confiado à Madre Maria do Carmo o cuidado da Capela do Santo Cristo, dizendo a sua superiora que ninguém melhor do que uma açoriana saberia ocupar-se daquele recinto. A Madre Maria do Carmo era micaelense, sobrinha de Mariano Victor Cabral, notável redactor do "Diário dos Açores".As religiosas de Maria Imaculada, que ocupam, actualmente, o lugar das antigas Clarissas, ali presentes de 1541 a 1894, têm sido extremamente atentas ao significado espiritual do Convento e têm dado aos reitores do Santuário uma excelente cooperação.

Em Abril de 1959, o então Bispo de Angra, D. Manuel Afonso de Carvalho, declarou Santuário Diocesano a Igreja do Santo Cristo.Eis um extracto desse decreto episcopal:

"Dom Manuel Afonso de Carvalho, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica Bispo de Angra e Ilhas dos Açores:(...) Para que este culto de Jesus Cristo Rei não esmoreça e a Paixão do Senhor absorva plenamente as almas, sem que surja qualquer vislumbre de prática ou acto menos conforme com o espírito e orientação da Santa Igreja, havemos por bem:
1) Declarar a Igreja do Santo Cristo dos Milagres Santuário Diocesano e confiar a sua administração a um sacerdote especialmente designado por Nós;
2) Recomendar a todos os reverendos Párocos e Sacerdotes que incutem nos fiéis o verdadeiro espírito de piedade e fervor para com o Santo Cristo, prevenindo-os dos perigos por ocasião da festa anual, a fim de que todas as suas acções sejam para a maior glória do Senhor;
3) Exortar todos os Açorianos, de qualquer categoria que sejam, a que, nas horas de tribulação como nas de bonança, invoquem, com verdadeiro espírito de fé, o Senhor Santo Cristo e lhe peçam que lhes conserve a pureza do coração, a resignação nos infortúnios e, dum modo especial, a graça para levaram uma vida conforme com a vontade do mesmo Senhor, a fim de um dia O poderem aclamar no seu Reino de glória.
Dado em Angra e Paço Episcopal, aos 22 de Abril de 1959."

Santo Cristo - Madre Teresa da Anunciada - Açores - Portugal

Madre Teresa da Anunciada nasceu e foi baptizada no dia 25 de Novembro de 1658, na freguesia de São Pedro da então vila da Ribeira Grande. Entrou para o Convento da Esperança onde iniciou o seu noviciado, em 19 de Novembro de 1681, vindo a fazer os votos solenes em 23 de Julho de 1683. Morreu, com fama de santidade, em 16 de Maio de 1738.


O prelado da Diocese de Angra deu início ao processo jurídico sobre a Vida e Virtudes de Madre Teresa, em 5 de Maio de 1738; nesse mesmo ano, em 6 de Agosto, o Provincial dos Franciscanos nos Açores deu início ao processo jurídico da Vida e Virtudes de Madre Teresa, feito pela Ordem de São Francisco.


Há poucos anos, circulou, entre a população açoriana, um abaixo-assinado, dirigido ao Santo Padre, do seguinte teor:"O povo dos Açores tem um grande amor e devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. Amor e devoção que ultrapassaram em muito as fronteiras da Região, porquanto em todos os países da diáspora açoriana se celebram festas em honra do Senhor Santo Cristo e são muitos milhares os que, de quase todo o mundo, se deslocam todos os anos em peregrinação de súplica ou acção de graças ao Senhor.Tudo começou com uma Religiosa Clarissa, Madre Teresa da Anunciada que, no silêncio do convento, recebeu um apelo especial para honrar e desagravar o Senhor na Sua Flagelação representado na Imagem do Ecce Homo.


A partir, sobretudo de 1700, o culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres tomou tal grandeza que, desde então, nunca mais esfriou. As graças e os milagres têm sido uma constante. Madre Teresa da Anunciada foi um instrumento para ajudar a recordar aos homens que Deus é solidário com o Seu povo.Monja de vida austera e intrépida na sua fé, pela oração intensa, pelo seu amor a Jesus e à Eucaristia e pela sua devoção a Maria Santíssima, é tida como modelo de santidade e considerada a grande intercessora junto do Senhor que tanto amou.Por isso, junto a minha voz à de muitos sacerdotes e fiéis, implorando a Vossa Santidade seja concedido o "nihil obstat" para a organização do Processo de Beatificação da Serva de Deus a fim de ser elevada à honra dos altares, assim o espero".


O Reitor do Santuário da Esperança, Monsenhor Agostinho Tavares, já anunciou que vai solicitar a intervenção junto da Santa Sé do novo Bispo dos Açores, D. António Braga, no sentido da beatificação de Madre Teresa da Anunciada.Os restos mortais de Madre Teresa conservam-se numa pequena urna que se guarda na Capela do Senhor Santo Cristo, no Mosteiro da Esperança.


Em fins do século passado, ou começos deste século, um dos bispos de Angra mandou abrir a caixa, que ainda hoje se conserva no coro baixo do Convento da Esperança e que contém os despojos mortais de Madre Teresa da Anunciada.


Removida que foi a respectiva cobertura, logo se evolou um magnífico e inexplicável aroma. Poderá alguém, mais exigente, não querer aceitar o facto. O certo é, porém, que da vida da Madre Teresa se evola um perfume que resiste a todas as inconsequências dos homens, a todos os desvios de alguns devotos, certamente sinceros, mas pouco esclarecidos.


O pai de Teresa de Jesus (mais tarde, Teresa da Anunciada) foi Jerónimo Ledo de Paiva, nascido na Ribeira Seca da Ribeira Grande, em Julho de 1601. A mãe foi Maria do Rego Quintanilha, baptizada na paroquial de S. Jorge, da Vila do Nordeste, em 11 de Agosto de 1614. A prolongada doença de Jerónimo Ledo de Paiva, que acabou por vitimá-lo, numa sexta-feira, 24 de Janeiro de 1666, foi a grande desgraça que se abateu sobre esta família, de treze filhos, sendo Teresa a mais nova. Foi sua irmã, Joana de Santo António, que fez os impossíveis até conseguir que Teresa de Jesus entrasse no Convento de Nossa Senhora da Esperança.


Quando Teresa chegou à idade de aprender a ler, sucedeu que veio por essa ocasião do Brasil seu irmão, Frei Simão do Rosário, para descansar alguns meses e restabelecer-se das extenuantes missões pelo sertão brasileiro. Ensinou a ler as irmãs mais moças e Teresa deliciava-se com a leitura da vida de santos, em especial as "Meditações de Santa Brígida".


Quando chegou o dia da profissão de Teresa, a procissão de ingresso que se organizou com luzido acompanhamento, saiu da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, do Convento dos Franciscanos, para a de Nossa Senhora da Esperança. Sobressaía a figura de Teresa de Jesus que, nesse momento, já estava crismada com o nome que a devia celebrizar - Teresa da Anunciada.


A família, os convidados e o conjunto musical, acompanhados de alegre repicar de sinos das torres de várias igrejas circunvizinhas, festejavam este acontecimento.Quando Teresa entrou para o Mosteiro da Esperança, estava no coro baixo, a um lado, num pequeno altar, uma imagem do Senhor, no passo do "Ecce Homo", que tinha um registo a tapar a abertura do peito, pois outrora servira de sacrário. A pedido de sua irmã, Joana de Santo António, Teresa conseguiu um novo altar para a Imagem que foi a encarnar. Pediu a Madre Jerónima do Sacramento, do Convento de Santo André, de Ponta Delgada, que fizesse uma cana de flores de seda, para ornar o Senhor quando regressasse ao seu novo altar.


A Imagem do Senhor Santo Cristo estava no seu novo altar, mas o tecto do coro era formado pelo soalho do coro alto que, além de velho, tinha muitas frinchas que deixavam passar o pó, além do barulho que se sentia quando se andava no coro alto. Teresa conseguiu que fosse construída uma capela e, a seu pedido, D. Pedro II, por alvará de 2 de Setembro de 1700, concedeu uma tença de doze mil réis, para manter acesa, dia e noite, uma lâmpada de azeite diante do altar do Senhor Santo Cristo.


Nenhuma dessas capelas chegou aos nossos dias, mas, sim, uma terceira, mandada construir posteriormente e que foi benzida a 22 de Março de 1771. Foi por esta época que Madre Teresa da Anunciada desejou que a Imagem do Senhor saísse em procissão, passando por todas as igrejas e conventos da cidade. Por intermédio do Conde da Ribeira Grande, obteve licença do Prelado, D. Frei António de Pádua, e a primeira procissão do Senhor Santo Cristo realizou-se a 11 de Abril de 1700, segundo o investigador Urbano de Mendonça Dias. (O investigador mais recente Luciano Mota Vieira invocou pesquisas que fazem recuar para 1698 a primeira procissão.


O cortejo repetiu-se em Abril de 1700 e foi esta data que, durante muito tempo, foi apontada como sendo a da primeira procissão).A devoção que esta procissão despertou foi tal que nunca mais deixou de se realizar, salvo uma ou outra vez, por efeito de mau tempo. É a maior devoção que se realiza em terras portuguesas.


Madre Teresa parece que não teve velhice, tal a energia que manteve até ao fim da vida. A última doença prostrou-a aceleradamente. Os jejuns, os cilícios, as penitências e uma cama feita com uma enxerga de palha sobre ramos, parece que nunca lhe tiraram as forças do corpo e lhe fortificaram as da alma. A doença que a vitimou não foi longa. Pressentiu a morte que chegou ao amanhecer de sexta-feira, dia 16 de Maio de 1738. Teresa ia completar, em Novembro seguinte, 80 anos de idade. A devoção que Teresa da Anunciada tão intensamente sentiu por Cristo no passo do "Ecce Homo" foi dando, através dos séculos, novas ressonâncias ao culto do Senhor, a ponto de ter chegado aos nossos dias, com notável influência na espiritualidade do nosso Povo.


A 16 de Maio de 1954, foi colocada uma lápide comemorativa na casa onde nasceu a Madre Teresa, sita à Rua do Torninho, na Ribeira Seca.


A 12 de Maio de 1963, foi inaugurado, junto à igreja da Ribeira Seca, um busto da Madre Teresa, da autoria do escultor Numídico Bessone.Em Dezembro de 1992, Madre Teresa da Anunciada foi oficialmente designada Patrona da escola n° 5 da Ribeira Seca.


A grande estátua da Madre Teresa, junto ao Santuário do Santo Cristo, em Ponta Delgada, foi inaugurada em 26 de Maio de 1984.



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